segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Não Olhe Para Cima - Aproveita a onda de polarização, mas peca ao não desenvolver bem a história

Imagem: Netflix

A proposta a princípio é boa, criar uma sátira em cima do contexto negacionista da Pandemia e polarização política. A execução, contudo, é falha.

Sinopse: Um astrofísico (Leonardo DiCaprio) e uma estudante (Jennifer Lawrence) descobrem que um cometa gigantesco está prestes a colidir com a terra no espaço de alguns meses, agora eles tentam alertar as autoridades para que algo seja feito a tempo.

Em uma clara alusão ao momento de pandemia e movimento anti-vacina, anti-aquecimento global e outros, o longa tenta fazer uma crítica ao governo e cidadãos que, ao invés de buscarem ouvir cientistas e pensar de forma razoável, preferem escutar comentaristas de jornais matinais e se informar através de memes no Twitter. Nada pode ser levado a sério, nem mesmo o fim do mundo, e é neste contexto que os protagonistas estão inseridos.

O nada assertivo professor Dr. Randall Mindy (DiCaprio), que inicialmente representa a visão mais clássica do cientista que está tão preso em sua bolha acadêmica que sente dificuldade de passar uma mensagem clara sobre a gravidade do problema, mas que após a exposição midiática acaba se adaptando a um ambiente onde ele está disposto a deixar de lado os princípios básicos do método científico sob a justificativa de que há um bem maior como resultado disso. 

A outra personagem que lidera o longa é a estudante, e primeira a descobrir o cometa, Kate Dibiasky interpretada por Jennifer Lawrence que, devo dizer, parece que não se encaixa muito bem na proposta do filme. Nada contra a atuação, mas a personagem parece não encaixar muito, ela é extremamente sóbria e intensa em um ambiente totalmente fora da caixinha. Embora isso possa ter sido intencional, não sei bem se a performance de Jennifer Lawrence encaixa no contexto, embora sua indignação seja a mais próxima daquela que esperaria de alguém. 

Além deles, contamos com a presença de Meryl Streep como a caricata presidente Orleans, que também não parece encaixar muito, além de ficar exagerada e infantil, e Cate Blanchett, brilhantemente escalada na pele da comentarista estilo "Morning Show" Brie Avantee. De longe, a melhor combinação de atriz e personagem. Falando em presidente neste universo caricato e satírico, talvez alguma coisa na linha de Selina Kyle de Veep cairia melhor. Aliás, pensando bem, ela teria sido perfeita aqui.

De resto, o longa acaba virando um desfile de atores famosos, muitas vezes sem realmente ter um conteúdo para apresentar e acabam desperdiçados, além de ser extremamente repetitivo em alguns seguimentos. O ápice da barrigada é o show com Ariana Grande e os diversos comícios da presidente, cujas cenas também são extremamente repetitivas. 

No mais, a crítica é válida tanto para os telespectadores que não procuram compreender o método científico, bem como aos cientistas que falham ao não conseguir se comunicar com a população no geral, que não é treinada para conhecer o processo de busca por evidências e acaba ficando refém de manchetes sensacionalistas de uma mídia também refém de cliques, políticos mal-intencionados e outros estudiosos extremamente enviesados. 

Acontece que acaba ficando uma crítica rasa, vez que só traduz o que acontece no Twitter e na grande mídia que pode ser resumida em a favor do candidato X ou a favor do candidato Y, enquanto a população no geral é mostrada como um grupo de ovelhas ignorantes. A verdade é que a situação é muito mais complexa que isso. O ser humano é um animal movido pela irracionalidade, primeiro ele crê e depois ele busca pistas para reforçar sua crença. Não se trata de um mau-caratismo, mas de uma característica própria de seu funcionamento, logo, a racionalidade e o ceticismo são contraintuitivos. Ninguém acredita na vertente política esquerda ou direita apenas por uma escolha aleatória, e é nisso que o filme peca em mostrar. Além disso, ele se apresenta como algo novo e atual, mas a verdade é que o ser humano sempre se comportou assim. Não há exatamente uma novidade.

Além disso, esquece-se que ainda que as pessoas no geral passem a concordar com os cientistas, o que é quase impossível uma vez que não existe UMA VERDADE, existem probabilidades e interpretações, não há muito o que indique que as soluções passarão a ser melhores. Afinal, boa parte do poder de "fogo" não está nas mãos de grande parcela da população, está nas mãos de poucos. A maioria sempre foi "refém" de uma minoria que detém o poder. 

Além disso, a direção de Adam McKay não consegue traduzir a grandiosidade de um evento de fim de mundo. Tudo fica extremamente contido a uma realidade americana. Entendo que possa ser uma crítica à essa postura norte-americana  de se colocar como salvadora do mundo, contudo, essa escolha rouba o filme da oportunidade de mostrar a grandiosidade do evento.

De resto, se tratando de uma crítica ácida ao momento atual, o filme passa de ano. Poderia ser mais sutil e enxuto em alguns momentos, mas as piadas apresentadas têm seu valor e algumas até tem o potencial de virar meme (o cara cobrou pelo lanche grátis).


Nota: 6/10.




  

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