Em 2007 a CW nos apresentou a adaptação de uma série de livros que explorava o mágico mundo das socialites de Nova Iorque. Com um ritmo animado, músicas da moda e um guarda-roupas impecável, Gossip Girl caiu rapidamente no gosto popular e se tornou uma série icônica. A mistura de histórias teen com o mundo adulto no estilo Ligações Perigosas narrada por uma personagem quase onisciente fez história e deixou a grade após perder a popularidade ao longo de seis temporadas e atores que já não queriam mais participar.
Tínhamos a bela, vivaz e encantadora (por vezes até sem graça de tão positiva) Serena van der Woodsen interpretada por Blake Lively, a queridinha dos designers. A rainha abelha Blair Waldorf, cujo nome transborda realeza, e brilhantemente interpretada por Leighton Meester. A personagem tinha camadas, vivia criando planos mirabolantes (que sempre se voltavam contra ela) e viveu um romance bem conturbado com um dos personagens de maior arco de desenvolvimento, Chuck Bass, interpretado por Ed Westwick. Ao lado deles tivemos a beleza de Chase Crawford na pele do sem graça Nate e por fim, Pen Badgley (You) como o outsider, o forasteiro do Brooklin que se vê no meio de todas as confusões. Em tese, ele é o nosso representante no meio da elite de Manhattan.
O que fez sucesso na época foi uma mistura de histórias sedutoras, personagens interessantes (e nada corretos), carisma dos atores, o fantástico e inacessível mundo dos milionários e um mistério, quem era a fofoqueira na voz de Kristen Bell? Ao final descobrimos quem foi e porquê fez. Não fez sentido nenhum, mas... a gente finge que acredita.
Eis que a HBO decide lançar uma plataforma própria de streaming e decide continuar/rebootar a série. Os personagens são novos, mas a cara é outra e o clima é bem diferente. Para começar, não há mistério de quem é a nova Gossip Girl. SPOILER. São alguns professores da escola de elite que os adolescentes frequentam e que querem meter medo nos alunos que não se importam com as aulas e vivem aterrorizando o corpo docente. Olha, nem precisava ser em Nova Iorque, aqui no Brasil isso acontece e nem precisa ser em escola de elite.
A suposta continuação pode ser percebida pela voz da narradora, trouxeram a incomparável Kristen Bell, e pelas breves e forçadas menções aos personagens originais. Só. Tudo é bem diferente. O ritmo é diferente, o show é mais escuro, não parece focar na moda ou estilo dos personagens a não ser quando traz algum momento influencer (resultado da inegável influência redes sociais), não sabe se apela para adultos com diversas cenas de sexo aleatórias ou se quer falar com adolescentes que só usam Instagram!? Achava que os jovens estavam no Tik Tok ou Twitter.
De qualquer forma, o show falha em não ter um mistério para conduzir a narrativa. Além disso, o reboot parece querer apostar no relacionamento de duas protagonistas que são irmãs por parte de mãe, mas não desenvolve isso completamente antes de colocar os obstáculos. Não sabemos o porquê elas se importam ou deveriam se importar uma com a outra a não ser por uma série de conversas que têm como único propósito ter um diálogo expositivo.
A série original estabelece que Serena e Blair eram melhores amigas antes da primeira sair da cidade de repente, sem avisar quase ninguém. O que nos segura é tentar saber o porquê dela ter ido embora tão de repente assim, levando Blair a se sentir traída e abandonada em um momento de fortes mudanças. Depois de estabelecido o motivo pelo qual Serena se afastou, temos ainda toda a reação da atual abelha rainha ao ver seu reino ameaçado pela volta da brilhante Serena. Uma amizade sempre no limite da rivalidade. Isso carregou o programa por muitos episódios.
Depois temos Dan, o cara do Brooklin que não fazia parte daquele mundo, mas que vivia se julgando superior a todos. Mas até ele tinha uma história, era secretamente apaixonado pela Golden Girl Serena. Os dois formavam o par improvável e tiveram que lidar com as diferenças de criação e nível social. Isso sem falar na complicada relação entre os pais deles.
No reboot temos essas duas irmãs que têm em comum uma mãe que faleceu, pais que se odeiam e... É isso. Você sabe que elas conversavam pelas redes sociais, esconderam esse relacionamento e... Nada. O arco se resolveu em dois segundos. Depois temos um exército de personagens que flutuam entre tentarem ser a Blair Waldorf e algum personagem da série Elite. Absolutamente genéricos.
No quesito ambientação, temos Nova Iorque, escola e nada de Glamour. A graça de Gossip Girl é termos acesso a um mundo inatingível que alimenta nosso imaginário. Uma espécie de corte de Versalhes. Aqui não temos a cultura dos ricaços, com brunches chiques e eventos para comemorar eventos. Cada jantar um look.
Infelizmente esse novo (ou antigo Gossip Girl que não envelheceu bem) não conseguiu acertar o tom, nem o público. Não consegue ser divertido e cheio de tiradas cômicas com claras inspirações no cinema e literatura. No primeiro, os sonhos de Blair eram influenciados por filmes como Bonequinha de Luxo e My Fair Lady, e tinham como propósito estabelecer toda a trama do episódio e ilustrar todo o seu drama. Por mais que tivesse momentos extremamente tensos e dramáticos, sempre acabava de forma mais leve.
Ainda com quatro episódios não é possível determinar se a série continuará nesse ritmo ou se ainda dá para salvar alguma coisa. Talvez, a ideia de um reboot de uma coisa que funcionou muito bem nos anos 2000 não tenha sido uma excelente ideia. A série original funcionou em uma época em que não tínhamos acesso à vida luxuosa de ricos (que hoje temos no Instagram), blogs ainda eram novidade e ainda existia a influência das socialites que eram famosas por serem belas e ricas. O mundo mudou, os programas mudaram também. Blogs não são novidades e com o acesso à informação democratizado, o mistério de Gossip Girl não faz mais tanto sentido.
De qualquer forma, o que mais faz falta são as camadas nos personagens, um motivo para torcer por eles e pelas amizades deles. Tudo parece estar muito superficial. Ainda dá tempo de salvar, a série precisa de alma e, quem sabe, um pouco de leveza. Já temos Elite, precisamos de algo diferente.


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