sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

And Just Like That... Sex and the City morreu

 
HBO

 

 E deu lugar para uma série nova composta pelas três protagonistas de Sex and The City e outras três personagens novas, cujos únicos propósitos são servir, a princípio, como um "pedido de desculpas" por todo o politicamente incorreto da série original. Essas novas adições, até o momento não têm histórias próprias, servem unicamente para navegar em torno das protagonistas e mostrar o quanto estas mulheres terão que correr contra o tempo para se atualizar com as novas demandas sociais, contudo, fica apenas cringe. Mas vamos por partes.

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS ATÉ PARTE DO TERCEIRO EPISÓDIO (NÃO CONSEGUI IR ALÉM DA METADE DESTE ÚLTIMO)

    O show é marcado por ausências e luto. Seja pela recente pandemia e distanciamento social, que levou muitas pessoas à solidão ou pelo menos ao distanciamento de amigos. Seja a óbvia ausência de Kim Cattrall com a personagem Samantha, um ícone da liberação sexual de seus dias. A personagem funcionou tanto na época que se tornou maior que a série e Kim teve dificuldades de conseguir papéis além da mulher forte e sensual, fato que também deve ter pesado em sua escolha de nunca mais reprisar o papel, além da pública desavença que teve com Sarah Jessica Parker. 

    Sabendo da força que a personagem carregava, a produção entendeu ser necessário explicar para o público, várias (desnecessárias) vezes ao longo do primeiro episódio, a ausência da personagem. O que não funcionou muito bem. Qualquer telespectador fã da série SATC sabe que, embora seus relacionamentos românticos fossem passageiros, Samantha faria tudo por suas amigas e jamais deixaria uma pequena desavença financeira ficar entre elas. A "desculpa" dos produtores, além de não funcionar, ainda joga um shade na atriz por trazer Parker (Carrie) falando que se sentiu como apenas um caixa eletrônico, talvez uma referência às exigências de cachê de Kim. Não se tratou de uma preguiça de roteiro, nem uma saída tão elegante como a princípio pensei, foi a versão de Sarah Jessica Parker sobre o ocorrido com a atriz Kim Cattrall. Samantha acabou recebendo os respingos dessa situação. Já que a atriz está decidida a não retornar como Samantha, talvez tivesse sido melhor que ela tivesse morrido e a série tivesse trazido à tona a questão do câncer de mama, que foi rapidamente esquecida nos filmes, mas que foi um dos poucos momentos mais conscientes da série.

    Já Miranda chega a ser irreconhecível. Embora seja uma das mais ardidas e cínicas do grupo, com fortes propensões a falar demais e muitas vezes na hora errada, a cena em que ela conhece a professora dos estudos sociais (que escolheu justamente por ter uma professora negra) chega a ser absurda nível mil. E não é nenhum pouquinho engraçada, caso essa tenha sido a intenção dos roteiristas. A mulher que antes era uma advogada corporativista workaholic, neurótica, esperta, sistemática e questionadora de padrões agora passa carão unicamente para... nada. A cena é exagerada e não funciona. A introdução da personagem de Karen Pittman tampouco parece ter outro propósito senão salientar ainda mais o quanto a série original falhou com as minorias e só. Ela mal tem tempo de tela ou fala.

     Ainda no núcleo de Miranda, Stevie, que antes representava o namoro entre classes sociais diferentes, hoje serve para ser o marido "acomodado" e também sem propósito. Talvez esse descaso com o personagem sirva para que os fãs não fiquem tão decepcionados no momento que Miranda se envolver com Chez (Sara Ramirez), provavelmente levantando a bola para sexualidade aos cinquenta anos, atração por pessoa não-binária e falta de sexo no casamento. Talvez um breve ar de Sex and The City.

    Agora, ainda no núcleo Miranda, que parece que terá que carregar a temporada nas costas com tanta coisa, ainda teremos uma possível dependência química (álcool) e dificuldade em colocar limites em Brady. Pausa para uma possível implicância minha, a cena em que ela fala da camisinha do filho e a cena dele (com dezessete anos) com a namorada conseguiram ser mais cringe do que as cenas dela com a professora e dando escândalo com Chez no meio do funeral de (SPOILER) Mr. Big. Por mim, aposentaria as cenas de sexo com menores de idade. Não quero ver, ponto.

    Ok, já que soltei o spoiler do Mr. Big, melhor falar logo de sua morte e da inércia de Carrie Bradshaw ao ver o marido caído no chão sofrendo um infarto. Mais comentado que o retorno da protagonista, foi o fato de que ela não ligou para o 911, famoso número de emergência, nem mesmo tentou fazer uma massagem cardíaca. E sim, ela deveria saber uma vez que Big tinha o histórico de problemas cardíacos. O falatório foi tanto que portais de revistas eletrônicas procuraram cardiologistas para verificar se Carrie realmente poderia ter salvado Big. A resposta no geral foi que o próprio Big poderia ter ligado para a emergência. Ao contrário do imaginário popular, muitas vezes a pessoa fica paralisada apenas de um lado, sente dor e se movimenta pouco, mas ainda tem a consciência. No geral, concordaram que se trata de um produto de ficção, então a gente aceita. Até porque, para a história andar, alguma coisa teria que acontecer no relacionamento entre ele e Carrie. Fosse divórcio, fosse a morte. Os roteiristas escolheram o último, talvez porque outro término entre eles não teria o mesmo impacto. 
foto HBO


    Agora teremos uma Carrie viúva na casa dos cinquenta por Nova Iorque, sem qualquer amarra a Big, porém caindo nas mesmas aspirais de paranoia que a insegurança no relacionamento levantavam, vide terceiro episódio em que ela vai atrás de Natasha. Tudo para que a série finalmente dê um encerramento mais digno para... Natasha, uma personagem que foi injustiçada em nome do grande amor entre os dois. O que também acaba lembrando que possivelmente Carrie não amadureceu muito após tantos anos e que também traz uma inconsistência por parte de Charlotte que parece não ter mudado quase nada, o que faz a inconsistência ser ainda mais gritante.

    Charlotte era a personagem mais conservadora, e quando descobriu que Carrie e Big estavam traindo seus respectivos companheiros, na véspera de seu primeiro casamento, foi a primeira a questionar a atitude da amiga, mas aparentemente no universo de And Just Like That... ela está Ok com a traição, chegando a dizer inclusive que foi o Big quem traiu Carrie com Natasha... Hum, nope. Não. De resto, seu arco provavelmente será apenas com relação à filha, que tem questões de gênero e possivelmente questões relacionadas a idade. 

    Não poderia deixar de mencionar que Stanford poderia ter tido mais presença na série original e até encaixa bem como o quarto integrante, trazendo o alívio cômico deixado por Samantha, embora às vezes haja um certo exagero. De resto, a série parece estar caminhando para ser algo parecido com Sex and The City, mas com certeza será algo novo. 
    
    
    

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